terça-feira, 11/12/2018

Da Função do Centro Espírita

1.1 – Centro Espírita

1.1.1 – Conceito

O Centro Espírita é a célula de disseminação do Espiritismo e do congraçamento dos seus adeptos. Segundo Emmanuel, mentor do médium Francisco Cândido Xavier(1).

“(…) é uma escola onde podemos aprender e ensinar, plantar o bem e recolher-lhe as graças, aprimorar-nos e aperfeiçoar os outros, na senda eterna”.

1.1.2 – Kardec e o Centro Espírita  

O Espiritismo nasceu na intimidade dos núcleos familiares (casas da Sra. Plainemaison, do Sr. Baudin, do Sr. Roustan, do Sr. Carlotti e do próprio Codificador).

Editado “O Livro dos Espíritos” e iniciada a publicação da Revista Espírita, o número crescente de adeptos nos mais diversos países levou Kardec a fundar, em 1º de abril de 1858, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

A partir desse marco, disseminaram-se os grupos espíritas na França e em outros países, estimulados e orientados pelo Codificador, que os prestigiou, sempre que pode, com suas visitas. Em “O Livro dos Médiuns” (Cap XXIX), preconiza a multiplicação de pequenos grupos, em lugar da constituição de grandes aglomerações. E, no Cap XXXI – Dissertações Espíritas – registra o ensinamento de Fénelon sobre o assunto (Dis. XXII).

1.2 – Função do Centro Espírita

1.2.1 – Finalidades

O Centro Espírita, como escola de formação espiritual e moral que deve ser, desempenha papel relevante na divulgação do Espiritismo e no atendimento a todos os que nele buscam orientação e amparo (2).

Para  atender às suas finalidades, o Centro Espírita deve: (3)

– ser núcleo de estudo, de fraternidade, de oração e de trabalho, com base no Evangelho de Jesus, à luz da Doutrina Espírita;

– ser compreendido como a casa de grande família, onde as crianças, os jovens os adultos e os mais idosos tenham oportunidade de conviver, estudar e trabalhar;

– proporcionar aos seus frequentadores oportunidade de exercitarem o seu aprimoramento íntimo pela vivência do Evangelho em seus trabalhos, tais como os de estudo, de orientação, de assistência espiritual e de assistência social.

1.2.2 – Escola da Alma

Na sua função de escola da alma, o Centro Espírita tem responsabilidade na educação integral do homem, como espírito imortal, e não como ser meramente existencial. Para tanto, deve promover, com vistas ao aprimoramento íntimo de seus frequentadores, o estudo metódico e sistemático e a explanação da Doutrina Espírita no seu tríplice aspecto – científico, filosófico e religioso – consubstanciada na Codificação Kardequiana e no Evangelho(4).

Outras atividades básicas que lhe cabe desenvolver são: (5)

– promover a evangelização da criança à luz da Doutrina Espírita;

– incentivar e orientar o jovem para o estudo e a prática da Doutrina Espírita e favorecer-lhe a integração nas tarefas do Centro Espírita;

– promover o estudo da mediunidade, visando a oferecer orientação segura para as atividades mediúnicas;

– manter um trabalho de atendimento fraterno, através do diálogo, com orientação e esclarecimento às pessoas que buscam o Centro Espírita;

– incentivar e orientar a instituição do Culto do Evangelho no Lar.

1.2.3 – Posto de Socorro Material e Espiritual

Em nenhum momento pode o Centro Espírita descurar do atendimento de quantos o procuram em busca de orientação e socorro para os seus problemas materiais, morais e espirituais. A máxima “Fora da Caridade não há Salvação” corresponde a um inalienável programa de trabalho no campo assistencial.

A diretriz é encontrada no opúsculo “Orientação ao Centro Espírita” (CFN/FEB), que recomenda à Casa Espírita

“Promover o serviço de assistência social espírita, assegurando suas características beneficentes, preventivas e promocionais, conjugando a ajuda material e espiritual, fazendo com que este serviço se desenvolva concomitantemente com o atendimento às necessidades de evangelização”.

Encontramos no citado opúsculo (item IX – Serviço Assistencial Espírita) toda a orientação necessária à harmonização dessa atividade com os postulados evangélico-doutrinários de que o Centro Espírita não pode se afastar.

1.2.4 – Atividades de Unificação

O Centro Espírita é a unidade fundamental do Movimento Espírita. Como tal, não lhe é lícito ficar fechado em si mesmo, mas, ao contrário, irradiar para fora do seu ambiente e ligar-se às outras instituições congêneres de sua comunidade. É o que Kardec recomenda, a propósito da multiplicação dos pequenos grupos, os quais “correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando observações, podem, desde já, formar o núcleo da grande família espírita, que um dia consorciará todas as opiniões e unirá os homens por um único sentimento: o da fraternidade, trazendo o cunho da caridade cristã”.(6)

O trabalho de Unificação do Movimento Espírita, no Brasil, consolidou-se a partir do “Pacto Áureo”, de 5 de outubro de 1949, e da instalação co Conselho Federativo Nacional, da Federação Espírita Brasileira, em 1º de janeiro de 1950. Ele cresce e se aprimora a cada ano, graças à ação intensa e permanente da FEB e das Entidades Federativas Estaduais.

A união dos espíritas e a unificação do Movimento têm sua base nas células municipais, onde os Centros Espíritas se reúnem nos respectivos órgãos unificadores para troca de experiências e a realização de programas comuns:

Cabe, assim, ao Centro Espírita: (7)

– participar efetivamente das atividades do Movimento de Unificação; e

– conjugar esforços e somar experiências com as demais Instituições Espíritas de uma mesma localidade ou região, de modo a evitar paralelismo ou duplicidade de realização.

Com isso, ele se beneficia das experiências, atividades e realizações das demais Instituições Espíritas; colabora com o desenvolvimento dessas Instituições, direta ou indiretamente; e contribui para uma definição do Movimento Espírita perante as demais correntes religiosas, a opinião pública e os poderes constituídos. (8)

1.2.5 – Projeção na Sociedade

1.2.5.1 – Agente de mudança

O Centro Espírita insere-se na sociedade, nela exercendo significativa influência.

Cumprindo a sua função, ele prepara o homem-espírita, em todas as faixas de idade, para atender ao preceito Kardequiano: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”. Esse homem renovado atuará na sociedade como agente de mudança, concorrendo para resolver a própria questão social, que, para Kardec, “está toda no melhoramento moral dos indivíduos e das massas”. (9)

A resistência do homem à mudança, a dificuldade que encontra para libertar-se das paixões e viver uma vida moral voltada para a solidariedade e a caridade em suas relações sociais está centrada no materialismo e no egoísmo. Conforme nos ensinam as Questões 799, 913 e 917 de “O Livro dos Espíritos”, com a certeza da vida futura, após a morte, o Espiritismo concorre para destruir o materialismo e, assim, contribui para o progresso; o egoísmo, por sua vez, “se enfraquecerá à proporção que a vida moral for predominando sobre a vida material e, sobretudo, com a compreensão que o Espiritismo faculta do estado futuro real do homem”. O combate ao egoísmo faz-se pela educação, que, “convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral”.

1.2.5.2 – Atividade de Divulgação da Doutrina

Além de projetar o homem-espírita na sociedade, compete ao Centro Espírita levar diretamente a mensagem da Doutrina e do Evangelho aos não-espíritas por todos os meios de divulgação e comunicação: através do livro, da imprensa espírita ou leiga, do rádio, da televisão, etc.

A comunidade espírita, no Brasil, está conscientizada dessa necessidade e se estrutura em todos os níveis do Movimento organizado para atendê-la. Feiras e Clubes do Livro Espírita, Vídeoclubes, programas de televisão, eis algumas atividades que o Centro Espírita deve estar presente.

O papel social do Centro Espírita é colocar a Doutrina ao alcance do homem na intimidade do lar ou nos segmentos sociais em que vive e milita, a fim de ir ao encontro do pensamento de Allan Kardec: (10)

“Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é mais apto do que qualquer outra doutrina, a secundar o movimento de regeneração; por isso é ele contemporâneo desse movimento”.

1.2.5.3 – Serviços Comunitários

Ao promover o serviço de assistência social espírita, tanto material quanto espiritual, o Centro Espírita incorpora-se à vida da comunidade, coopera com o poder público e concorre para amenizar e minimizar os problemas sociais e o sofrimento dos menos afortunados.

A atuação do Centro Espírita no âmbito dos serviços comunitários, por estar respaldada nos princípios da Doutrina e do Evangelho de Jesus, merece o reconhecimento das autoridades, o incentivo e o apoio da sociedade.

2. DO COMPROMISSO DOUTRINÁRIO

2.1 – Fidelidade à Doutrina Espírita

No editorial “Preservemos o Centro Espírita”, enfatiza a revista REFORMADOR, da FEB (março/92):

“O compromisso do Centro Espírita e dos seus dirigentes é para com a Doutrina, estudada e aplicada em consonância com o Evangelho de Jesus. A adoção de teorias e práticas exóticas ou não afinadas com a simplicidade e a pureza dos trabalhos espíritas compromete-lhe o objetivo e desorienta seus frequentadores e assistidos”.

Reconhecendo o Centro Espírita que o Espiritismo é o Consolador Prometido que veio, no devido tempo, recordar e complementar o que Jesus ensinou, trazendo, assim, à Humanidade, as bases reais de sua espiritualização (11), não pode afastar-se da pureza de seus princípios – dos quais é depositário, sob pena de concorrer para que aconteça com a Doutrina Espírita a deturpação que ocorreu com o Cristianismo primitivo.

Cabe-nos enfatizar, permanentemente, que a Causa Espírita está acima da Casa Espírita. Assim, no Centro Espírita, a Doutrina deve estar em primeiro lugar, ficando em segundo plano os interesses da instituição e os pontos de vista de seus dirigentes, médiuns e frequentadores.

2.2 – Simplicidade do Centro Espírita

O Centro Espírita deve caracterizar-se pela simplicidade própria das primeiras Casas do Cristianismo nascente, com a total ausência de imagens, paramentos, símbolos, rituais, sacramentos ou quaisquer manifestações exteriores, tais como casamentos e batizados. (12)

Considerando que grande número de pessoas que frequentam a Casa Espírita provém das religiões tradicionais, onde o culto exterior é um componente de suas práticas, a simplicidade do Centro Espírita funciona como processo educativo e libertador, eliminando os condicionamentos mentais e os hábitos arraigados.

2.3 – Concessões Perigosas

Recomenda Jesus que nós devemos estar no mundo sem ser do mundo. O mundo de César tem suas exigências, mas não podemos olvidar que, no Centro Espírita, estamos a serviço de Deus.

Sob a alegação de que os fins justificam os meios, alguns dirigentes de Centros Espíritas, à guisa de atender às suas obras assistenciais, à construção ou ampliação de suas sedes, ou por outros motivos, adotam, às vezes, diversas práticas perigosas, que comprometem a pureza doutrinária e ferem a ética espírita.

No opúsculo “Orientação ao Centro Espírita” (IX – Serviço Assistencial Espírita), a recomendação contra esses procedimentos é incisiva:

“As entidades espíritas, na execução de suas atividades e manutenção de seus trabalhos, selecionarão com rigoroso critério os meios de consecução dos recursos financeiros, evitando tômbolas, rifas, quermesses, bailes beneficentes ou outros meios desaconselháveis ante a Doutrina Espírita”.

Precisa-se redobrar a vigilância nas práticas doutrinárias mediúnicas, para que estas não venham a ser deturpadas pela infiltração de “novidades” externas, tais como orientalismos, sincretismos, modismos, que constituem outras tantas concessões perigosas de dirigentes despreparados quanto ao conhecimento espírita.

2.4 – Processos Alternativos de Tratamento e Cura

Tem-se observado, ultimamente, a introdução na Casa Espírita de processos alternativos de tratamento e cura, tais como terapia das vidas passadas, cromoterapia, cristalterapia, pirâmides, projeciologia e outros. Tais processos, por mais valiosos que sejam para os seus praticantes, nada têm a ver com o Centro Espírita.

Vale, para esses casos, a advertência do citado Editorial de Reformador:

“Dispõe a Casa Espírita de inestimáveis recursos para atendimento aos que a procuram em busca de lenitivo para seus males psicofísicos. Entre esses recursos estão a prece, o passe, a água fluidificada, a desobsessão, além da imprescindível orientação evangélico-doutrinária. Buscar reforço de estranhos tipos de tratamento indica falta de fé na terapêutica do Consolador”.

3. DA DIREÇÃO DO CENTRO ESPÍRITA

3.1 – Estrutura do Centro Espírita

O Centro Espírita, na condição de uma sociedade civil, deve organizar-se não apenas para desenvolver com eficiência as suas atividades básicas, mas também para cumprir as suas obrigações legais, tributárias e administrativas. A transparência contábil e financeira, com aplicação correta dos recursos e regular prestação de contas aos sócios e órgãos fiscalizadores é postulado inderrogável.

No desenvolvimento das atividades administrativas, o Centro Espírita deve estabelecer metas para as suas diversas áreas, planejando periodicamente suas tarefas e avaliando seus resultados. Se a estrutura for departamental, o planejamento levará em conta esse fato, para que haja entrosamento entre as diferentes áreas. (13)

3.2 – Papel do Dirigente do Centro Espírita

Não há mais lugar, no Centro Espírita, para o dirigente autocrata, que se julga “dono” da instituição e se escuda nos Espíritos (“espírito-cracia”) para fazer valer sua vontade.

O dirigente espírita deve exercer uma liderança que seja aceita e consentida pelos liderados em face da sua autoridade moral e doutrinária.

O dirigente é o guardião da Doutrina e do Centro Espírita. De sua conduta e vigilância resultam a preservação da pureza dos princípios doutrinários e o cumprimento das funções da Casa que dirige.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) XAVIER, Francisco C. – O Centro Espírita – Mensagem de Emmanuel, psicografada em 10/04/50, em Pedro Leopoldo (MG).

(2) “Orientação ao Centro Espírita” – CFN, da FEB, Pág 13, 3, Ed 1988.

(3) Idem, Pág 13.

(4) Idem, Pág 14.

(5) Idem, Pág 15.

(6) KARDEC, Allan – “O Livro dos Médiuns”, Cap XXIX, nº 334, Pág 422-42, Ed FEB, 1980.

(7) “Orientação ao Centro Espírita” – CFN, da FEB, Pág 16.

(8) “Orientação ao Centro Espírita” – CFN, da FEB, Pág 61.

(9) KARDEC, Allan – “Obras Póstumas” – Credo Espírita, Pág 384-18, Ed FEB, 1981.

(10) KARDEC, Allan – “A Gênese”,Cap XVIII, nº 25, Pág 417-19, Ed FEB,1977.

(11) “Orientação ao Centro Espírita” – CFN, da FEB, Pág 13.

(12) “Orientação ao Centro Espírita” – CFN, da FEB, Pág 14.

(13) “Orientação ao Centro Espírita” – CFN, da FEB, Pág 14.

(Publicado na Revista Reformador, da  FEB,  de março de 1993)

Reformador, da FEB, de março de 1993

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