sexta-feira, 22/06/2012

Prefácio

A Revista Espírita (Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques) está comemorando cento e cinqüenta anos de sua fundação. Circulou de janeiro de 1858 até abril de 1869, sob a égide de Allan Kardec. Quando desencarnou, em 31 de março de 1869, o número de abril já estava composto e foi publicado com sua assinatura. Sua semente foi lançada em reunião mediúnica na residência do Sr. Dufaux, em novembro de 1857. A Sra. Ermance Dufaux foi a médium pela qual Allan Kardec consultou o Espírito a respeito da idéia que alimentava de publicar um jornal espírita. De pronto recebeu o apoio da Entidade, que deu a ele a seguinte orientação:

[…] De começo, deves cuidar de satisfazer à curiosidade; reunir o sério ao agradável: o sério para atrair os homens de Ciência, o agradável para deleitar o vulgo. Esta parte é essencial, porém a outra é mais importante, visto que sem ela o jornal careceria de fundamento sólido. Em suma, é preciso evitar a monotonia por meio da variedade, congregar a instrução sólida ao interesse que, para os trabalhos ulteriores, será poderoso auxiliar. (Obras Póstumas, 33. ed. FEB, p. 294)

E realmente o foi. Tornou-se a Revista o instrumento hábil pelo qual o Codificador dialogava com os novos adeptos da Terceira Revelação e, também, com seus detratores, tornando o periódico tão interativo quandopossível, objetivando, assim, construir a unidade de princípios no movimento espírita nascente. Tanto que após dez anos de circulação, afirmava seu fundador:

A Revista foi, até agora, e não podia deixa de ser, uma obra pessoal, visto que fazia parte de nossas obras doutrinárias, constituindo os anais do Espiritismo. Por seu intermédio é que todos os princípios novos foram elaborados e entregues ao estudo. Era, pois, necessário que conservasse seu caráter individual, para que se estabelecesse a unidade. (RE, 1868, p. 527) (Grifamos.)

E isso foi possível porque o Codificador, dez anos antes, estabelecera que aquele periódico seria uma tribuna livre onde os mais variados assuntos de interesse do Espiritismo seriam discutidos sem que houvesse disputa. Ponderava ele:

As inconveniências de linguagem nunca foram boas razões aos olhos de pessoas sensatas; é uma arma dos que não possuem algo melhor, voltando-se contra aqueles que dela se servem. (RE, 1858, p. 24) (Grifamos.)

Dessa forma, oferecia o fundador da primeira revista eminentemente espírita um código de conduta a ser seguido pelos futuros periódicos de todo o mundo que se dedicassem ao Espiritismo.

Os 135 números da Revista Espírita, somando 4.568 páginas redigidas pelo Codificador, conforme originais franceses, transformaram-se em prodigiosa fonte primária de informações sobre a história do surgimento, divulgação e implantação definitiva do Espiritismo como doutrina codificada. Foi ele mesmo quem a indicou como sendo sua leitura indispensável. No capítulo 3o de O Livro dos Médiuns sugere que a ordem ideal de leitura para melhor compreensão do Espiritismo seria O que é o Espiritismo, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e a Revue Spirite, a esta se referindo nestes termos:

Variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos isolados, que completam o que se encontra nas duas obras precedentes, formando-lhes, de certo modo, a aplicação. Sua leitura pode fazer-se simultaneamente com a daquelas obras, porém, mais proveitosa será, e, sobretudo, mais inteligível, se for feita depois de O Livro dos Espíritos.

A leitura criteriosa da Revista Espírita nos dá uma visão tridimensional da história do Espiritismo como doutrina codificada na fase de sua estruturação porque:

– tomamos conhecimento da atuação direta dos Espíritos nas reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, invocados pelo “bom senso encarnado” – no dizer de Camille Flammarion – para lhes oferecer esclarecimentos e ensinamentos sobre os fatos da vida. A leitura dos Boletins, publicados na Revista, faz-nos sentir no amplo salão do templo da Terceira Revelação, ouvindo os médiuns dando passividade aos Espíritos São Luís, Erasto, São Vicente de Paulo e tantos outros;

– acompanhamos, passo a passo, o hercúleo trabalho do Professor Rivail fazendo a leitura do mundo e interpretando os fatos à luz dos ensinamentos dos Espíritos, demonstrando que nada acontecia sem que houvesse uma explicação dada pela lei de causa e efeito, não se importando com aqueles que o achavam ingênuo e crédulo;

– mensuramos a reação do público dos diversos recantos do Planeta onde a Revista era lida, frente à ação segura do intimorato e lídimo intérprete do Plano Espiritual Superior, alicerçando o monumento da mensagem de Jesus que se reeditava sob a égide do Espírito de Verdade, com o nome de Espiritismo.

A manifestação dos Espíritos, a ação de Kardec e a reação do mundo é a visão tridimensional que o leitor da Revista Espírita terá da chegada do Espiritismo até nós. Kardec nada oculta do seu leitor. Na Revue fala dos seus problemas, das suas preocupações, das suas lutas, frustrações e vitórias dentro e fora do meio espírita. Mantém, o que ele chama de polêmica útil, desarmando os caluniadores e difamadores da Doutrina e da sua própria pessoa, argumentando com austeridade, com lógica imbatível e elegância, mantendo sua fé inabalável no apoio dos seus mentores espirituais. Tudo isso palpita naquelas páginas e nos dá a impressão de vivermos ao lado do Codificador, na sua
época…

A Revista Espírita é obra que completa a Codificação. Todo estudioso do Espiritismo sabe que Kardec indica, freqüentemente, em seus livros, a consulta àquele periódico

Questões que não podiam ser desenvolvidas amplamente em suas obras, sujeitas a limites de espaço, eram na Revue Spirite analisadas com minúcias. Fazia a leitura do mundo da sua época e do passado, colhendo temas aparentemente vulgares, sem importância, e interpretava-os do ponto de vista espírita, enriquecendo-os com sua análise criteriosa, fazendo emergir suas causas e conseqüências. Escrevia valiosos comentários das leituras que fazia em livros, folhetins, artigos e documentos literários, filosóficos, científicos e religiosos, de épocas diversas, desde que contivessem referências e manifestações dos Espíritos ou princípios, idéias e pensamentos espíritas..

Impossível, portanto, se ter uma noção completa do Espiritismo sem a consulta à Revista Espírita.

Reconhecendo o grande e rico manancial de ensinamentos e fatos do Espiritismo e a importância que tinham eles para o estudioso da Terceira Revelação, em 1868, o incansável Allan Kardec, na edição de dezembro, dizia aos seus leitores da intenção de publicar “[…] um índice geral alfabético de todos os assuntos tratados, seja na Revista, seja em nossas outras obras, de maneira a facilitar as pesquisas.” Mas não o fez, pois o tempo escasso e o breve retorno à Pátria Espiritual não lhe permitiram.

O seu sonho, no entanto, está sendo materializado com esta edição. Este índice é um verdadeiro portal alfanumérico que dá acesso a um enciclopédico mundo de informações construído por Allan Kardec. São aproximadamente 4.000 entradas principais (descritores) e mais de 13.500 entradas secundárias (detalhamentos) compiladas dos 12 volumes (1858-1869) e 144 números (considerando-se os 12 números – jan. a dez. de 1869) da Revista Espírita.

O leitor terá acesso a detalhes de assuntos por ele tratados ao longo da formação e desenvolvimento do movimento espírita. Saberá mais sobre a Codificação e terá ampliado o seu conceito sobre o Espiritismo, como filosofia, ciência e religião. Tomará contado com diversos casos noticiados pela imprensa, casos louváveis ou censuráveis que ofereciam conteúdo para estudos morais sérios à luz do Espiritismo. As mais curiosas manifestações espíritas, tais como aparições, bicorporeidade, premonições, vidência, cura mediúnica, obsessão, manifestações físicas pelos Espíritos batedores, chamadas hoje pelos parapsicólogos de poltergeist, foram registradas pelo incansável vigilante na Revista Espírita, estando hoje ao seu alcance em um “piscar de olhos”.

Basta buscar a entrada que lhe interessa, a palavra ou a expressão que seja do seu interesse, para se deparar com inúmeros dados a seu respeito, passando a conhecer o pensamento de Kardec e de seus contemporâneos sobre ela, facilitando a pesquisa e permitindo que divulgue o Espiritismo com maior riqueza de detalhes e de informações.

Boa pesquisa!

Brasília (DF), 1º de janeiro de 2008.

Waldehir Bezerra de Almeida
Indexador