60 anos do Pacto Áureo

Do apostolado de Bezerra de Menezes ao Acordo de Unificação do Movimento Espírita Brasileiro

 

Por sua importância e riqueza de dados históricos, reproduzimos o texto Cinquentenário do Pacto Áureo – Do apostolado de Bezerra de Menezes ao Acordo de Unificação do Movimento Espírita Brasileiro, publicado em Reformador de outubro de 1999 (p. 7 a 9 e 32 a 35)

Movimento Espírita brasileiro comemora neste mês o quinquagésimo ano do evento de mais alta significação em sua história.

Aos 5 de outubro de 1949, em memorável reunião entre diretores da FEB e representantes de diversas Federações e Uniões de âmbito estadual, firmava-se na sede da Federação, no Rio de Janeiro, o acordo que, pondo fim a injustificáveis divisionismos no seio da família espírita brasileira, concretizava a aspiração de sucessivas gerações, cultivada desde os primórdios do Espiritismo em nossa terra, no sentido de que ela se unificasse sobre as bases da união fraterna, da solidariedade e da tolerância.

Ao mesmo tempo que um justificado motivo de júbilo para todos os adeptos conscientes, o Acordo de Unificação do Movimento Espírita brasileiro também representa uma constante advertência sobre os prejuízos que o cultivo das paixões personalistas pode acarretar como consequência do afastamento da orientação cristã da Doutrina.

O Movimento Espírita brasileiro, não obstante o fato de ser obviamente constituído por criaturas imperfeitas, escolheu, após longo período de conflitos e dissidências, o melhor caminho – e nele tem permanecido – para cumprir sua precípua finalidade de praticar e divulgar a Doutrina, a saber, o caminho da unidade na liberdade, o que implica fidelidade aos princípios fundamentais da Revelação, tolerância recíproca acima de todas as naturais divergências interpretativas sobre questões acessórias e união em clima de fraternidade e solidariedade.

Pelos seus belos resultados, o Pacto Áureo demonstrou frisantemente a necessidade de jamais perdermos de vista o caráter unitário da Doutrina e a sua estreitíssima, indissociável vinculação à pura doutrina do Divino Messias, se efetivamente desejamos servir aos superiores ideais da Revelação que nos congrega e felicita os corações.

Fac-símile da Ata do Pacto ÁureoAo longo desses cinquenta anos, ilustres cronistas têm revivido, em fecundos artigos, em circunstanciados noticiários, a história do Acordo de 1949, com vistas a que seus ideais se conservem sempre vivos no coração das sucessivas gerações de espíritas. Nosso mensário naturalmente se fez o mais rico repositório das lembranças em torno de suas causas, remotas e imediatas, seu contexto, protagonistas, vicissitudes, e é desse fecundo material que colhemos, visando ao mesmo objetivo dos predecessores, a substância para a presente comemoração.

O Evangelho, em sua imortal sabedoria, adverte que uma casa dividida contra si mesma caminhará fatalmente para a ruína. Efetivamente, todos conhecemos por experiência própria, nos mais diversos setores da atividade humana, os resultados funestos das dissensões, da discórdia, do desamor. O exemplo do Cristianismo oferece melancólica ilustração dessa verdade. Não obstante jamais se haver apagado o brilho imortal do pensamento e das ações do Cristo nas páginas do Evangelho, as igrejas que surgiram desse vigoroso tronco perderam-se em mesquinhas divergências, subdividiram-se em numerosas seitas, esquecendo ou desprezando o fundamento sempre voltado para a união, a humildade, a caridade, a tolerância.

Allan Kardec preocupou-se em prevenir o Espiritismo contra semelhantes tropeços, absolutamente certo de que, se a Doutrina é pura e incorruptível, o movimento, a organização dos homens para praticá-la e divulgá-la é suscetível dos mesmos prejuízos que dificultaram a ação do Cristianismo.Nesse sentido, cuidou de formular com clareza e precisão o sistema doutrinário que se ergueria sobre as revelações espirituais a lhe chegarem de todos os lados, veiculadas através de inúmeros médiuns. Sobre esse fundamento não deveria pairar nenhuma dúvida que, no futuro, pudesse engendrar interpretações divergentes. Estas só caberiam no terreno dos pontos não essenciais e teriam sua justificativa no fato de que diversas seriam as maneiras de cada um interpretar e aceitar as revelações e elucidações que girassem em torno desses pontos não essenciais.

Com isso, Allan Kardec assegurava ao conjunto dos adeptos, vale dizer, aos movimentos organizados, uma das bases de sua efetiva UNIFICAÇÃO: a unidade doutrinária, sem a qual eles resvalam para a divisão, a fragmentação em cismas e seitas.

A outra coluna sustentadora da Unificação surge da vivência dos princípios morais da Doutrina, os quais revivem, em sua pureza primitiva, os princípios ensinados e exemplificados por Jesus, a saber, amor fraterno entre os adeptos, solidariedade, tolerância, numa palavra, UNIÃO. Seu efeito unificador se verifica de modo bem positivo justamente no terreno em que surgem as divergências interpretativas quanto a pontos não essenciais, a métodos de trabalho, a formas de organização.

A unidade doutrinária e a união fraterna e solidária dos adeptos são, portanto, pressupostos fundamentais da Unificação.

Enquanto encarnado,Allan Kardec, pela sua autoridade intelectual e moral, personificava, com a suaatuação, a própria unificação. Não perdia de vista, porém, o Codificador, a época em que a sua ação pessoal cessaria, devendo efetivamente ser substituída, mas sem qualquer prejuízo, de modo que não ruísse pela base, ao longo dos anos, a construção por ele iniciada.

É nesse sentido que, preocupando-se com o futuro do Espiritismo, do ponto de vista de sua prática, de uma organização que lhe assegurasse terreno firme para a sua difusão, Allan Kardec se dedica a um Projeto a que dá o nome de “Constituição do Espiritismo” e no qual avulta a concepção de uma direção central capaz de sustentar os pilares da indispensável unificação, “em condições, de força e estabilidade, que a ponham ao abrigo de todas as [...] necessidades da causa e oponham intransponível barreira às tramas da intriga e da ambição”.1

A esse núcleo diretor das atividades do Movimento Espírita, destinado a guardar e vigiar a unidade progressiva da Doutrina, a sustentar a unificação,Kardec deu o nome de “Comissão Central”, cujo estabelecimento assinalaria a mudança da fase de um comando individual na marcha do movimento espírita para uma direção coletiva, com a mesma autoridade moral. Diz Kardec:

[...] Compreende-se que, sem uma autoridade moral, capaz de centralizar os trabalhos, os estudos e as observações, de dar a impulsão, de estimular os zelos, de defender os fracos, de sustentar os ânimos vacilantes, de ajudar com os conselhos da experiência, de fixar a opinião sobre os pontos incertos, o Espiritismo correria o risco de caminhar ao léu. Não somente essa direção é necessária, como também preciso se faz que preencha condições de força e de estabilidade suficientes para afrontar as tempestades. Os que nenhuma autoridade  admitem não compreendem os verdadeiros interesses da Doutrina. Se alguns pensam poder  dispensar toda direção, a maioria, os que não se creem infalíveis e não depositam confiança absoluta em suas próprias luzes, se sentem necessitados de um ponto de apoio, de um guia, ainda que apenas para ajudá-los a caminhar com segurança.2

Inspiradíssimo estava o Codificador, quando procurou balizar o caminho do Espiritismo a partir do momento em que se daria essa transição.

Entre nós – afirma-o Humberto de Campos (Espírito) em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho – “as falanges de Ismael estavam vigilantes”, pois seria aqui, para onde Jesus havia transplantado a Árvore do Evangelho, que se instalaria o centro de irradiação do Espiritismo Cristão com vistas à Nova Era, centro cuja expressão visível se concretizaria na Federação Espírita Brasileira, com a sua organização ideal para abraçar, em inquebrantável unidade, todos os núcleos de difusão da Doutrina em nosso país, mesmo aqueles que dela se conservassem afastados mas que a ela sempre estiveram ligados no plano espiritual.

Seguindo seu luminoso planejamento, com o beneplácito do Divino Mestre, Ismael (o Anjo do Senhor) ensaia a organização dos primeiros núcleos doutrinários no Brasil, agrupando, em 1873, no Rio de Janeiro, um pugilo de valorosos pioneiros para a fundação do “Grupo Confúcio”, onde ele próprio se manifesta para definir o caráter das atividades espíritas no Brasil, base sobre a qual se asseguraria a união fraterna, a unidade doutrinária, numa palavra a unificação:

A missão dos espíritas no Brasil é divulgar o Evangelho, em espírito e verdade. Os que quiserem bem cumprir o dever a que se obrigaram antes de nascer deverão, pois, reunir-se debaixo deste pálio trinitário: Deus, Cristo e Caridade. Onde estiver esta bandeira, aí estarei eu, Ismael.3

A arremetida da sombra, consciente do poder unificador de um programa assentado sobre a rocha inabalável do Evangelho, não se faz esperar, e, explorando a vulnerabilidade do caráter humano, ainda inclinado às seduções da vaidade, arrefece a unidade do Grupo, que acabaria desaparecendo em 1879.

Membros do “Grupo Confúcio”, sob a liderança de Bittencourt Sampaio, fundam em 1876 a “Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade”, com programa inspirado nas exortações de Ismael.

Sucede-lhe, como fruto de sua capitulação às influências desagregadoras, a “Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade”, cujos membros – afirma-o Pedro Richard, em Reformador de 15 de setembro de 1901 – “se distinguiriam, não pelas virtudes de cada um, mas pelo seu cabedal científico. O amor, a caridade, a humildade, enfim as virtudes, não mais teriam cotação naquele Centro. Só a ciência, a pretensa sabedoria lhes merecia a honra da atenção”.

Transporta-se, porém, em 1880, o estandarte luminoso – Deus, Cristo e Caridade – para a sucessora da “Acadêmica”, a “Sociedade Espírita Fraternidade”, carregado pelos mesmos fiéis discípulos, tendo à frente os vultos de Bittencourt Sampaio, Antônio Luiz Sayão e do notável médium Frederico Pereira da Silva Júnior.

Também aí as forças da sombra encontram terreno favorável para a semeadura da discórdia, e o grupo, sob as mesmas influências negativas, se transforma em “Sociedade Psicológica Fraternidade”, que desaparece em 1893, quando a Federação, com nove anos de existência, já se preparava para assumir a missão de executora do Programa de Ismael nos círculos espíritas do Brasil, vale dizer, promover a união e a unificação.

É na “Sociedade Espírita Fraternidade”, nos anos de 1888 e 1889, que o Espírito Allan Kardec, ante o lamentável quadro da desorganização e desunião em que se encontrava a família espírita, convoca os inúmeros grupos então existentes a que se unam, se harmonizem “na prática do estudo, da caridade e da unificação”, ao mesmo tempo que reprova aqueles que se constituíam em elementos de desagregação.

Adolfo Bezerra de MenezesAs exortações do Codificador revestem tal gravidade que encontram calorosa acolhida na maioria dos adeptos, principalmente no coração missionário de Bezerra de Menezes que, em 1889, exercia, pela primeira vez, a presidência da Federação Espírita Brasileira. Decide-se ele por medidas práticas que dessem início à efetiva união dos espíritas e à unificação de suas atividades. Certo de que a missão de dirigir e orientar a família espírita, na consecução desse superior objetivo, cabia à Federação Espírita Brasileira, Bezerra de Menezes nela instala, em 21/4/1889, o “Centro da União Espírita do Brasil” que, todavia, teve a sua atuação malograda por ainda ressentir-se a família espírita de uma certa falta de amadurecimento, não obstante a maioria reconhecer necessário e inadiável o passo para se congregarem em torno de um único núcleo diretor e orientador, como preconizara Allan Kardec em seu Projeto de 1868. A errônea interpretação em torno dos aspectos que revestem a Revelação dos Espíritos separava os adeptos em duas correntes – “científicos” e “místicos” –, isto é, a dos que viam no Espiritismo apenas uma ciência, e a dos que, com razão, lhe aceitavam as consequências de ordem moral, ou seja, o seu caráter cristão, explicitamente definido em O Livro dos Espíritos.

Esse “Centro”, por iniciativa de Afonso Angeli Torteroli, se reinstalaria em 1894, com os mesmos objetivos de unir a família espírita e unificar as suas atividades doutrinárias, realizando suas reuniões, de início, na própria sede da Federação. Bezerra de Menezes e muitos outros ilustres e respeitados espíritas da época pertenciam à sua diretoria, mas, pelos desvios que ali começavam a ser perpetrados, Bezerra, em 1896, e, após ele, mais outros cinco diretores se desligam, vindo o “Centro” a se dissolver em 1897. As associações a ele filiadas elegem então a Federação Espírita Brasileira como o centro do Espiritismo no Brasil, a qual, pelo Reformador de 15/3/1897, ponderou que “se se entende por tal a unificação, ou melhor, a uniformidade de pensamento e de ação na propaganda da Doutrina Espírita, essencial e fundamente moral”, ela se sente feliz em aceitar a filiação de todos os grupos, mas “de acordo com a orientação claramente manifestada nas colunas do Reformador”.

O leitor não perca de vista que Bezerra de Menezes, desde 1895, exercia a presidência da Federação pela segunda vez, nela já imprimindo a definitiva orientação evangélica que até hoje inspira sua ação unificadora. O grande missionário retorna ao plano espiritual em 1900, deixando consolidada essa base, absolutamente indispensável ao erguimento da Obra de Ismael.

Impunha-se agora aos sucessores de Bezerra definir a forma pela qual a Casa de Ismael congregaria em torno de si a sempre crescente família espírita do Brasil. Nesse particular, convém lembrar que essa forma de organização já lhe havia sido intuitivamente impressa no próprio nome, uma vez que à época de sua fundação (1884) nada havia ainda a federar, e assim ela nascia Federação sem, efetivamente, o ser.

Em 1901, na presidência de Leopoldo Cirne, a Federação promove a reforma de seu Estatuto com vistas a, entre outros objetivos, implementar o sistema federativo segundo o qual se faria a ela a filiação das agremiações espíritas espalhadas pelo País. Esboçavam-se as bases para uma efetiva unificação, cujo significado então se definiu como união solidária e fraterna, com sustentação da autonomia individual, patrimonial e administrativa das entidades filiadas.

Leopoldo CirneMultiplicam-se os pedidos de adesão, vindos de todo o território nacional, com o que se ampliavam os limites da organização federativa.

Mas é em outubro de 1904, por ocasião do centenário de nascimento de Allan Kardec, que representantes dos núcleos espíritas dos Estados do Amazonas, Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, bem como de grande número de Instituições Espíritas sediadas na antiga Capital Federal, reunidos a convite da Federação para os festejos comemorativos do grande evento, firmam em conjunto um importante documento que ficou conhecido como “Bases de Organização Espírita”, o qual passou a orientar a marcha do Movimento Espírita no Brasil.

O pensamento dos espíritas brasileiros, ali expresso, refletia os princípios fundamentais preconizados por Allan Kardec na Constituição do Espiritismo, com vistas às bases para a unificação do Movimento Espírita: unidade doutrinária com os seus aspectos científico, filosófico e religioso, união fraterna e solidária dos adeptos e uma direção central apta a guardar essas bases.

A partir daí, verificou-se um significativo crescimento do Movimento Espírita brasileiro, evidenciado na fundação de grande parte das Federativas Estaduais e de inúmeras agremiações espíritas. Tudo indicava que a paulatina concretização das aspirações de Allan Kardec e dos primeiros espíritas do Brasil não encontraria empecilhos de monta, uma vez que era geral a consciência da necessidade de unificação com os seus pressupostos de união fraterna, unidade doutrinária quanto aos princípios fundamentais da Revelação e reconhecimento da autoridade moral de uma direção central.

O processo, todavia, foi lento, porque, durante algumas décadas, divergências e incompreensões desperdiçaram preciosas forças, retardando a programação de Ismael.

Em 1925, surge a ideia de se instalar uma “Constituinte Espírita Nacional”,4 com propósitos unificadores, mas a iniciativa reduz-se aos limites de uma Assembleia, em 31/3/1926, da qual resultou a fundação, nessa mesma data, da Liga Espírita do Brasil, entidade que se propunha também a federar as instituições espíritas, mas que, mais tarde, subscrevendo o Acordo de 1949, se transformaria em Liga Espírita do Distrito Federal, passando a integrar a organização federativa coordenada pela FEB, como membro do Conselho Federativo Nacional.

Nesse entremeio, o trabalho da Federação prosseguia cumprindo o Programa de Ismael, e, no mesmo ano de 1926, de 3 a 8 de outubro, sob os seus auspícios, realizava-se a primeira reunião do Conselho Federativo criado na reforma do Estatuto da FEB, em dezembro de 1924, e composto pelos Delegados das Associações Espíritas Federadas. Nessa reunião, a Casa de Ismael vê tomar corpo, para futura consolidação, a forma inicial de sua Organização Federativa, graças principalmente ao fervor do 2o secretário Guillon Ribeiro, alma toda dedicada aos ideais da solidariedade e da fraternidade entre os membros, individuais e coletivos, da família espírita do Brasil.

Em outubro de 1933, sempre sob o patrocínio da FEB, realiza-se a segunda reunião do referido Conselho, na qual se ratificam os princípios da Organização Federativa, aperfeiçoando-lhe a estrutura, ampliando-lhe o alcance, alargando-lhe os objetivos.

Nesse período, apesar do acirramento das questões divisionistas, a Casa de Ismael sempre mais e mais se afirma como a condutora dos trabalhos do Espiritismo em nosso País, no rumo da Unificação.

Os anos de 1947 e 1948 assinalam a ocorrência de eventos, de âmbito estadual e nacional, que evidenciam a acentuada conscientização do Movimento Espírita a respeito da necessidade da união de forças, do congraçamento, da concórdia, em todos os níveis de sua atuação, já se destacando, fora dos círculos da FEB, os vultos de Lins de Vasconcellos, Carlos Jordão da Silva, Noraldino de Mello Castro, Leopoldo Machado, Francisco Spinelli, Aurino Souto, Roberto Pedro Michelena, Pedro de Camargo (Vinícius), entre tantos outros valorosos e sinceros servidores da seara espírita, cujo amor à causa da unificação arrastava indivíduos e organizações a cerrarem fileira em torno da nobre bandeira.

Por essa ocasião, o então presidente da Federação Espírita Brasileira, Antônio Wantuil de Freitas, nega-se a aceitar proposta do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, convocado pela USE – União Social Espírita (atual União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo), realizado na cidade de São Paulo, de 31 de outubro a 5 de novembro de 1948, segundo a qual se deveria criar uma Confederação ou um Conselho Superior do Espiritismo. A Delegação que apresentou a proposta do Congresso, formada pelos representantes da Federação Espírita do Estado do Rio Grande do Sul, tem cel. Roberto Pedro Michelena, Marcírio Cardoso de Oliveira, Dr. João Pompílio de Almeida Filho e Francisco Spinelli, ainda insiste em seu propósito, valendo-se da intervenção de Lins de Vasconcellos, amigo pessoal e íntimo de A. Wantuil, mas o saudoso presidente, pelas suas sólidas convicções, recusa-se a tratar do assunto.

Aproximando-se a última quadra de 1949, pressentia-se positivo desfecho para os esforços dos adeptos sinceros, empenhados na união de toda a família espírita.No mês de outubro, realizava-se, no Rio de Janeiro, o II Congresso da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA). Lins de Vasconcellos aproveita o ensejo para pedir a Antônio Wantuil que mais uma vez recebesse a Delegação do Congresso realizado em São Paulo no ano anterior. O presidente recusa-se, mas informa que teria muito prazer em ouvi-la, se com a Delegação viessem todos os representantes de sociedades de âmbito estadual que então se encontrassem no Rio tomando parte no Congresso da CEPA.

Assim é que [escreve Sylvio Brito Soares no artigo “Vinte Anos de Pacto Áureo!”, em Reformador de outubro de 1969] no dia 5 de outubro de 1949, com a presença de inúmeros confrades de São Paulo, Paraná, Santa Catarina,Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de outros do então Distrito Federal, realizou-se na sede da Federação Espírita Brasileira uma reunião presidida pelo seu presidente, Sr. Antônio Wantuil de Freitas. Nela, o coronel Roberto Michelena, chefe da Delegação do Congresso paulista, propôs a criação de um Conselho Superior do Espiritismo, formado por três membros. O presidente da Federação, após argumentar contra a proposta, põe-na em discussão e votação, sendo unanimemente rejeitada. E como ninguém mais quisesse usar da palavra, o presidente da Federação, após ligeira exposição sobre todos os acontecimentos, apresentou uma proposta, em nome da Diretoria da Casa de Ismael, a qual continha dezoito itens que, lidos, foram unanimemente aprovados [...]. E desde então a harmonia se estabeleceu em todo o meio espírita brasileiro, malgrado raras e inevitáveis vozes discordantes.

O memorável encontro ficou conhecido como a Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, cuja Ata, reproduzida nas páginas 294 e 295 desta edição,5 expressava os pontos essenciais para que se concretizassem os anseios de confraternização da família espírita brasileira, em perfeita harmonia com o Programa de Ismael.

Não se limitou exclusivamente aos signatários da Ata o número daqueles que aprovaram os resultados do grande evento. Muitos não puderam esperar a lavratura do documento, como Leopoldo Machado, Manuel Jorge Gaio, Armando de Oliveira Assis, João de Oliveira e Silva, Carlos Lomba, Sylvio Brito Soares, F.V.Rocha Garcia, Paulo Ludka e Alfredo Félix da Silva. Outros logo manifestaram seu apoio, a saber: Nélson Batista de Azevedo, pela União dos Discípulos de Jesus, J. Bezerra de Vasconcelos, então presidente da União Espírita de Pernambuco, Geraldo de Aquino, diretor da Hora Espiritualista João Pinto de Souza, Oli de Castro e Álvaro Paes Nascimento, delegados do Pará.

Duas comunicações mediúnicas selaram o acontecimento com a chancela das Superiores Esferas Espirituais. A primeira se deu ainda no desenrolar do encontro, quando, após a prece de encerramento proferida por Vinícius, o Espírito Guillon Ribeiro manifesta seu incontido júbilo através das faculdades psicofônicas de Oswaldo Mello. A segunda se verifica, naquele mesmo dia, durante os trabalhos do “Grupo Ismael”, psicografada pelo médium Olympio Giffoni e trazendo a assinatura do próprio Ismael. Esta importantíssima mensagem encontra-se na página 296 do presente número de nossa revista [out. 1999].

Muitos foram os que na época se pronunciaram com sincera emoção sobre o magno Acordo, mas dentre todos destacamos, pela sua absoluta insuspeição, o vulto do Prof. Leopoldo Machado, cujo testemunho, colhido no livro “A Caravana da Fraternidade”, edição do Lar de Jesus,Nova Iguaçu (RJ), (1954), expressa a clara percepção do a que ele chamou Santa Aliança Espirítica:

Não teria vindo o PACTO ÁUREO para a colimação da unidade de princípios e como um empurrão na bandeira, que é uma só, e para aquele mesmo fim? Não será o Pacto Áureo aquele convite providencial às sociedades sérias, para que exista no meio espírita a união, a simpatia, a fraternidade que ainda não existem, infelizmente? Assim o achamos. E por assim o acharmos, não descobrimos no Pacto Áureo nenhuma sociedade que se arrogue superioridade sobre as outras? A Federação Espírita Brasileira, será? Não o cremos. Ela convida, apenas, através do Pacto Áureo, para a colimação da unidade de princípios, outras sociedades sérias; procura agrupar a seu redor todos que assim pensarem. E que outra Instituição teria tanta autoridade e mais força para o convite? Foi pensando assim que hipotecamos solidariedade incondicional ao Pacto Áureo [...].

Nitidamente concretizado o ideal da união, do congraçamento da generosa família espírita brasileira, na forma daquele encontro de vontades que foi o Pacto Áureo, cumpria agora formalizar aquilo que lhe seria o instrumento para erguer a consequente unificação, dar a esta um organismo, como aliás previsto no item 2o do Acordo de 1949, segundo o qual a Federação deveria criar “um Conselho Federativo Nacional, permanente, com a finalidade de executar, desenvolver e ampliar os planos da sua atual Organização Federativa”.

Instala-se esse Conselho Federativo Nacional em 1o de janeiro de 1950, tendo a seguinte composição:

  1. Ismael Gomes Braga – Rio Grande do Norte
  2. José Augusto de Miranda Ludolf – Paraíba
  3. Alcides Neves Ribeiro de Castro – Pernambuco
  4. Ubaldo Ramalhete Maia – Espírito Santo
  5. Miguel Timponi – Minas Gerais
  6. Carlos Imbassahy – Rio de Janeiro
  7. Carlos Jordão da Silva – São Paulo
  8. Arnaldo Claro São Thiago – Santa Catarina
  9. Arthur Lins de Vasconcellos Lopes – Paraná
  10. Severino Antônio da Cunha – Rio Grande do Sul
  11. Aurino Barbosa Souto – Distrito Federal

Aos 8 de março do mesmo ano, o Conselho dirige aos espíritas uma Proclamação, firmada pelo presidente A.Wantuil de Freitas e pelo 1o secretário José Augusto de Miranda Ludolf, de que transcrevemos o seguinte trecho:

Urge, portanto, que todos os Espíritas se unam, sem rivalidades nem competições, em torno da FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA, fazendo-se representar no CONSELHO FEDERATIVO NACIONAL todas as instituições de âmbito estadual, a fim de que esse grande movimento de fraternidade e compreensão, incontestavelmente já vitorioso, possa produzir os magníficos resultados por todos justificadamente esperados e ansiosamente desejados.

Tão promissoras se mostravam as perspectivas abertas pelo grande passo dado pelos espíritas brasileiros, que elas fizeram irromper as mais sentidas efusões na alma fiel do então presidente da Casa de Ismael, Antônio Wantuil de Freitas, sinceramente evidenciadas no Relatório que apresentou à Assembleia Deliberativa (hoje Conselho Superior) sobre a sua administração no período de julho de 1949 a junho de 1950:

Esse congraçamento geral, essa unificação que harmonizará o esforço e a orientação de todas as Entidades Espíritas de nossa Pátria, objetivo máximo desta Casa, grande anseio que desde o século passado fez vibrar a alma de Bezerra de Menezes, inolvidável e incansável pugnador da obra de metodizar e unificar a prática do Espiritismo, já não é um sonho, mas realidade sentida, visível e em plena execução. [...]

O tempo correu. E, em seu transcurso, foi ensejando aos homens o ajustamento e o reajustamento das coisas, consolidando aspirações e afervorando anseios, dando-lhes rumos por escalas de aperfeiçoamentos objetivados e estudados, sempre em graus progressivos, tudo a evolver para os primores da eficiência. É que os Espíritos trabalhavam o terreno, à espera do momento para que tudo se concretizasse em ocasião propícia, nunca fora do tempo justo e predeterminado.

Enquanto aqui aguardávamos, solícitos e ansiosos, que se mirrassem dissidências e surgisse a oportunidade de eclosão desse glorioso evento, lá, em diferentes Estados, a mesma ideia germinadora desse ideal de união agigantou-se no desejo e na consciência de todos, pois que cumpria à Federação aguardar o choque de retorno, isto é, que esse mesmo velho e acariciado pensamento voltasse ao âmbito central, já agora partindo da periferia. Pura obra dos Espíritos! [...]

Damos graças a Jesus e louvamos a Ismael, com profundo agradecimento aos nossos Maiores do Espaço, nos quais pomos fé e inquebrantável confiança como norteadores dos nossos deveres nesta Casa a que procuramos servir lealmente, embora as nossas deficiências.

Foto dos integrantes do Pacto Áureo um dia após a assinaturaRestava, como indeclinável legitimação ao Acordo, a adesão de todos os membros da grande família espírita brasileira. Os que o subscreveram tinham a clara consciência da necessidade de estendê-lo à imensa fração dos que militavam nas regiões do Norte e do Nordeste brasileiros e não puderam se representar na Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro.Com esse objetivo e inspirados no fervor apostólico dos primeiros arautos do Cristianismo, seis valorosos confrades – Arthur Lins de Vasconcellos Lopes, Carlos Jordão da Silva, Francisco Spinelli,Ary Casadio, Leopoldo Machado e, mais tarde, Luís Burgos Filho – iniciam, em 31 de outubro de 1950, uma excursão coletiva, às suas próprias expensas, assim formando a célebre “Caravana da Fraternidade”, cuja ação se encerrou em 13 de dezembro do mesmo ano, na cidade de Belo Horizonte (MG), tendo sido visitados onze Estados daquelas regiões, desde a Bahia até o Amazonas.6 Os resultados excederam as expectativas, dando abençoados frutos de confraternização, esclarecimento e consolidação dos ideais de unificação.

A partir daí, ao longo desses cinqüenta anos [atualmente sessenta anos] de vigência do Pacto Áureo, a história da união dos espíritas brasileiros e da unificação paulatina de suas atividades é a própria história do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira [...]. Em artigo publicado em Reformador de outubro de 1997, sob o título “O Conselho Federativo Nacional e a Unificação do Movimento Espírita”, o nosso presidente Juvanir Borges de Souza declarava:

O Pacto Áureo, base para o entendimento entre as Instituições Espíritas do País do Cruzeiro, tornou possível uma nova fase de difusão do Espiritismo no Brasil, dentro do princípio da liberdade, intrínseco na Doutrina, viabilizando a convivência fraterna entre irmãos muito próximos, sem uniformização do pensamento e da ação.

Ao encerramento da Reunião Ordinária do Conselho Federativo Nacional, em novembro de 1997, significativa moção de apoio à Federação Espírita Brasileira foi apresentada e aprovada por todas as Sociedades componentes do CFN, a demonstrar o equilíbrio, a harmonia e a compreensão reinantes naquela assembleia de dedicados trabalhadores. Coroando essa memorável reunião, o Espírito Bezerra de Menezes, em bela mensagem psicofônica, pelo médium Divaldo Franco, deixou-nos este alerta:

A unificação dos espíritas é trabalho para todos os dias, para todas as horas do nosso Movimento. Paulatinamente é conquista realizada, passo a passo, urgente, porquanto se torna necessária, para que a fragmentação, para que as dissensões, para que o egotismo dos indivíduos e dos grupos não semeiem discórdias graves nem ameacem o patrimônio doutrinário.

 

1 KARDEC, Allan. Obras póstumas. 19. ed.
Rio de Janeiro: FEB, 1983, p. 354-355.
[Atualmente, 40. ed., § 3 – O chefe do Espiritismo,
p. 390.]
2 Id. Ibid. p. 351. [KARDEC, Allan. Obras
póstumas. 40. ed. Rio de Janeiro: FEB,
2007. § 3 – O chefe do Espiritismo,
p. 386.]
3 ABREU, Silvino Canuto. Bezerra de Menezes:
Subsídios para a História do Espiritismo
no Brasil até o ano de 1895.
3 . ed. São Paulo: FEESP, 1987. p. 32.
4 WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do
Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1990.
p. 477. [Atualmente, 4. ed., 2007, Leopoldo
Cirne, p. 477.]
5 N. da R.: Refere-se à edição de outubro
de 1999. Nesta edição p. 22-23.
6  N. da R.: Sobre a “Caravana da Fraternidade”,
ver p. 27 desta edição.

Bibliografia:
Além das obras mencionadas nas Notasde rodapé também foram consultadas as seguintes fontes:
XAVIER, Francisco Cândido. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Pelo Espírito Humberto de Campos. 11. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1977.
BRAGA, Ismael Gomes. Elos doutrinários. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978.

BRASILEIRA, Federação Espírita. Esboço histórico da Federação Espírita Brasileira.2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1924.
RIBEIRO, Guillon. Trabalhos do Grupo Ismael. V. I. Rio de Janeiro: FEB, 1941.
Reformador. Coleções de 1904, 1924 a 1926, 1933, 1948 a 1952, 1957, 1960,1969 e 1970, 1973 a 1980, 1982 a 1986, 1989 a 1992, 1994 a 1997.

 

Imagem ilustrativa de uma caneta em cima de um documento antigo

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Edição de Julho 2010

Capa da Revista do Mês

Sumário

Editorial
Atualidade do Espiritismo (Capa)
Comportamento preconceituoso

Nesta Edição

Entrevista: Wagner de Assis
Filme Nosso Lar destaca a renovação espiritual
Presença de Chico Xavier
A Independência – Humberto de Campos
Lei de Reprodução – Christiano Torchi
Em dia com o Espiritismo
Evolução epigenética – Marta Antunes Moura
Tributo a Chico Xavier na ONU
O trabalho voluntário na Casa Espírita
O voluntariado do amor – Xerxes Pessoa de Luna
A isso fomos chamados
Lucy Dias Ramos
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Revista Reformador – uma publicação da:

FEB - Federação Espírita Brasileira