Pela atualidade dos pensamentos nele expostos, reproduzimos o texto “Esperanto e
preconceitos”, publicado em Reformador de maio de 1979, p. 14(162)
AFFONSO SOARES
Em novembro de 1937, Reformador publicava interessante artigo do Prof. Ismael Gomes Braga intitulado “O Esperanto como fenômeno linguístico”, de que tentaremos dar um pálido resumo.
Tendo constatado que os idiomas só se formaram muito lentamente, através dos séculos, os filólogos convenceram-se de que seria impossível a elaboração de uma língua planejada, despojada dos defeitos e irregularidades existentes no que eles chamavam “línguas naturais”. Essa afirmação, por ser anticientífica, caiu por terra, pois é sabido que todas as línguas modernas estão enriquecidas de uns 90% de vocábulos e expressões convencionais e artificiais, por isso que adotados conscientemente pela Ciência.
A linguagem técnica, a artística, a própria escrita é convencional e, por isso, artificial, como pode ilustrar, por exemplo, o fenômeno de utilização de vocábulos gregos e latinos para a formação de palavras novas, as quais expressam noções totalmente desconhecidas no tempo em que aqueles vocábulos eram naturais. Assim, estribados em um preconceito, os linguistas decretaram a morte das línguas artificiais planejadas, negando a possibilidade de vir um dia a existir o que de fato já existia diante de seus narizes, isto é, um idioma formado convencionalmente pela Ciência, e não às cegas, pela longa elaboração dos séculos.
O estudo comparativo do esperanto com as línguas de cultura demonstra cabalmente que a língua internacional não é mais artificial do que as outras, embora seja muitíssimo mais lógica, mais regular, mais fácil. A vida do idioma neutro internacional é manifestada nos congressos, na rádio, na imprensa, na arte, na ciência, demonstrando, à saciedade, que o velho preconceito pseudocientífico foi vencido e que a Humanidade já dispõe de um instrumento pelo qual pode ser estabelecida a colaboração universal nos diversos campos em que se expressa a vida da comunidade planetária. E o grande pioneiro esperantista conclui: Esse instrumento existe em pleno funcionamento, e dele já podemos utilizar-nos para os mais diferentes fins – para o bem ou para o mal – para levar pensamentos de amor, paz, fraternidade, esperança aos homens e, desgraçadamente, também, para levar o ódio, a descrença, a suspeita, as prevenções e preconceitos! Para ensinar aos homens que existe um Deus, uma Providência, uma alma imortal, um progresso infinito; ou para transmitir-lhes pensamentos negativos e maus. Qual o nosso dever? Deixar, indiferentes, que o grande veículo do pensamento seja utilizado somente pelos outros? Ou, ao contrário, apropriar-nos dele, estudando o idioma, fazendo- lhe a propaganda entre os nossos amigos, ensinando a quantos nos pareçam com a elevação moral necessária a só utilizá-lo para o bem? Com efeito, o esperanto é uma força neutra, podendo veicular paz e violência, amor e ódio, luz e treva.As diferentes correntes do pensamento, as diversas doutrinas, filosofias e sistemas já possuem suas obras mais representativas vertidas em esperanto, cada qual procurando realizar sua semeadura nos corações humanos.
E é por não desconhecer essa realidade que a Federação Espírita Brasileira tem procurado cumprir com o seu dever, divulgando as imortais lições da Terceira Revelação, a Doutrina dos Espíritos, entre os membros da imensa família esperantista disseminada por todos os recantos do planeta. Grande tem sido o interesse dos nossos irmãos de outras terras pelas obras espíritas traduzidas para o esperanto, como o atesta a formação, na Europa oriental, de grupos esperantistas para o estudo da Doutrina. Esse é o nosso dever: divulgar o Bem e o Belo, lembrar aos nossos irmãos de humanidade “que existe um Deus, uma Providência, uma alma imortal, um progresso infinito!” E o esperanto é um excelente instrumento para tão nobre empresa!

Ismael Gomes Braga
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