quarta-feira, 27/07/2016

Perfeccionista conformado

Toda vez que fazemos algo, seja a realização de um serviço ou a geração de um produto, procuramos executar da melhor forma possível. Sobretudo, quando somos perfeccionistas. A busca pela perfeição é quase infinita, e parece que nunca estamos totalmente satisfeitos com os resultados alcançados.

O perfeccionismo, longe de ser uma qualidade positiva, pode ser visto, sob determinado ângulo, como uma característica negativa. Geralmente, o perfil perfeccionista nunca está satisfeito com sua ação, principalmente com o que os outros fazem. Por uma razão simples: não ficou do jeito que ele gostaria que ficasse. Daí a insistência em se refazer inúmeras vezes sob os paradigmas já estabelecidos, espécies de dogmas inquestionáveis.

Por trás do perfeccionismo pode estar guardada uma série de questões a serem trabalhadas com vistas à autoeducação espiritual do indivíduo. A centralização é uma delas: geralmente, o perfeccionista é uma pessoa que costuma fazer as coisas a seu modo e apenas esse jeito é o melhor, senão o único. Não costuma confiar na realização do serviço por outrem.

A desconfiança quanto à qualidade de seu próprio trabalho e do labor alheio também persegue e, simultaneamente, é alimentada por esse comportamento, que parece nunca estar satisfeito.

  A insegurança é outra marca registrada desse perfil. O indivíduo está sempre se questionando e perguntando a terceiros sobre a tarefa em andamento. Será que está bom, mesmo? Eu acho que ainda não está como eu gostaria. Que lhe parece? E nunca consegue concluir… É uma insegurança enorme.

*

Certa vez, ouvi a expressão “perfeccionista conformado”, e ela se encaixou feito uma luva para mim, pois traduzia exatamente a ideia de que eu necessitava para entender o comportamento mais adequado de um perfeccionista.

Aprendi que, embora tenhamos as características de um sujeito perfeccionista, sendo metódicos e organizados, exigentes e teimosos, é necessário dar andamento aos projetos, serviços, atribuições e a tudo que esteja sob nossa responsabilidade, acreditando na viabilidade de aperfeiçoar os empreendimentos. Todavia, não devemos esperar a perfeição absoluta, pois ainda estamos distantes dela, o que não nos impede de imprimirmos qualidade aos nossos afazeres.

Quando lidamos como instrumentos do estudo, da difusão e da prática do Espiritismo, sentimo-nos responsáveis pela obrigação de desenvolver a função competentemente. É imprescindível buscar fazer o melhor dentro de nossas possibilidades, não nos cabendo esperar que o resultado seja impecável. Sempre haverá o que aprimorar. A evolução é uma lei natural. Não obstante, tenhamos a consciência de nos dedicar com zelo e disciplina ao cumprimento de nossa tarefa, na certeza de que Jesus sempre ampara os esforços dos colaboradores de Sua abençoada Seara de consolação e esclarecimento.

Ao indagar o Espírito de Verdade sobre o objetivo da encarnação dos Espíritos, Allan Kardec obteve a seguinte resposta, como ensino para todos nós:

Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.1

A nossa caminhada rumo à perfeição relativa, a que estamos destinados pela vontade do Criador, é longa. Teremos muito tempo pela frente, a depender de nossa vontade e desempenho. Para se atingir o grau de pureza, o estado de puro Espírito, uma encarnação apenas é insuficiente. Foi o esclarecimento que o Codificador assentou, sob a coordenação dos Espíritos Superiores, na obra basilar do Espiritismo:

[…] o que o homem julga perfeito longe está da perfeição. Há qualidades que lhe são desconhecidas e incompreensíveis. Poderá ser tão perfeito quanto o comporte a sua natureza terrena, mas isso não é a perfeição absoluta. Dá-se com o Espírito o que se verifica com a criança que, por mais precoce que seja, tem de passar pela juventude, antes de chegar à idade da madureza; e também com o enfermo que, para recobrar a saúde, tem que passar pela convalescença. Demais, ao Espírito cumpre progredir em ciência e em moral. Se somente se adiantou num sentido, importa se adiante no outro, para atingir o extremo superior da escala. Contudo, quanto mais o homem se adiantar na sua vida atual, tanto menos longas e penosas lhe serão as provas que se seguirem.2

 

Observamos, assim, que o progresso é gradativo, mas nunca deixa de ocorrer. Mesmo que o indivíduo se utilize da liberdade para “estacionar” quase indefinidamente, chegará o momento em que não terá como fugir à imperiosa necessidade de prosseguir na caminhada ascensional, por ser esta a única fatalidade prevista nas leis divinas, acompanhadas das virtudes do amor e do bem.

Esta gradual progressão foi anunciada pelos Benfeitores Espirituais:

Todos [os Espíritos] têm que percorrer os diferentes graus da escala, para se aperfeiçoarem. Deus, que é justo, não poderia ter dado a uns a ciência sem trabalho, destinando outros a só a adquirirem com esforço.3

E o Codificador arremata em nota explicativa, a fim de que não paire qualquer dúvida: “É o que sucede entre os homens, onde ninguém chega ao supremo grau de perfeição numa arte qualquer, sem que tenha adquirido os conhecimentos necessários, praticando os rudimentos dessa arte.”

Estamos a caminho, em pleno “campo de batalha”, lutando, sobretudo, para superar as imperfeições e conquistar as virtudes que ainda nos faltam. Não desanimemos ante as abençoadas provas do caminho, pois elas representam desafios indispensáveis ao nosso constante aperfeiçoamento.

*

Prezado leitor, a sensação do momento é a de que este texto ainda não ficou bom. Poderia aperfeiçoá-lo, com certeza. Mas vou-me lembrar da lição do “perfeccionista conformado”, que, com muito custo, estou tentando vivenciar para a minha felicidade e alívio daqueles que comigo convivem.

Artigo originariamente publicado em Reformador.

Referências:

1 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. q. 132.

2 _____. ______. q. 192.

3 _____. ______. q. 561.

SOBRE O AUTOR

Geraldo Campetti Sobrinho

Geraldo Campetti Sobrinho é vice-presidente da Federação Espírita Brasileira. Responsável pela área de Divulgação Doutrinária, que contempla as seguintes unidades organizacionais: Reformador; Memória e Documentação; Comunicação; FEB Editora; e Comercial. Palestrante, escritor e apresentador dos programas Livros que Iluminam e Entre dois mundos: uma visão espírita da realidade, da FEBtv.

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