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Espiritismo em Pauta com Samuel Magalhães: Paris, Kardec e o segundo patamar do Edifício da Codificação

Nesta entrevista o pesquisador Samuel Magalhães nos leva a uma viagem pelo cenário de Paris em 1861, época do lançamento de O livro dos médiuns. O pesquisador nos traz, ainda, os desafios enfrentados por Allan Kardec no lançamento desta obra.

  1. Samuel, como era o cenário parisiense em relação ao Espiritismo na época da edição de O livro dos médiuns?

O Espiritismo havia já alcançado largo progresso no início da década de 1860, assinala Allan Kardec. Não só na França: Paris, Lyon, Sens, Bordeaux… como noutros países: Inglaterra, Áustria, Bélgica, Rússia… e, noutros continentes, numerosos grupos se haviam formado, com o objetivo de experienciar, estudar e divulgar a Doutrina Espírita.

Nada obstante o presto sucesso logrado, nos mais diversos quadrantes, muitas vozes erguiam-se em seu desfavor. Dos clérigos aos profanos, dos materialistas aos espiritualistas, dos iliteratos aos acadêmicos, e da imprensa, choviam ditérios e zombarias, na tentativa de atingir os espíritas e deslustrar o Espiritismo.

Allan Kardec, apesar das lutas travadas e das fadigas sentidas, mostrou-se sempre confiante, bendizendo, mesmo, as dificuldades do caminho. Paris, de todo modo, Atenas do Mundo Contemporâneo, estava destinada a palco da Terceira Revelação. E O livro dos médiuns, lançado a 15 de janeiro de 1861, contaria afetos e desafetos, ali e alhures, incólume às más investidas, esteio da Era do Espírito.

  1. Que desafios Allan Kardec enfrentou para a publicação deste livro?

Allan Kardec foi um incansável trabalhador.

Logo após dar a lume O livro dos espíritos, e dantes, talvez, inicia o que viria a ser O livro dos médiuns, fazendo aparecer o Instrução prática sobre as manifestações espíritas, em 1858.

Dois anos depois, pela primeira vez, refere-se ao então não editado O livro dos médiuns, em seu artigo Espíritos Glóbulos, na Revista Espírita, fevereiro de 1860.

Em julho do mesmo ano, também na Revista Espírita, diz que o livro está no prelo, e que deveria ter saído em abril último, não vindo a público em virtude de questões alheias à sua vontade, e pela importância que lhe cabia dedicar. E, em novembro, anuncia que o seu novo trabalho estaria nas livrarias em dezembro, daquele 1860.

Todo esse esforço, as previsões não confirmadas, as naturais dificuldades de impressão, à época, e a intensa faina falam-nos de quanto enfrentou Allan Kardec, na produção de O livro dos médiuns.

  1. Houve fatos históricos instigantes relacionados a essa obra de Allan Kardec?

Em si, o surgimento de O livro dos médiuns, há-se de admitir, é um fato histórico dos mais relevantes para a Humanidade. Continuação de O livro dos espíritos, o marco zero de um novo tempo, receberia aplausos e apupos dos homens, fossem despertos ou dormentes.

Adeptos espíritas, e meros afeiçoados, deitaram encômios ao livro e seu autor; adversários, de todos os matizes, chistes e anátemas.

O bispo católico de Barcelona, Antonio Palau y Termens, o levaria à fogueira, com outras obras espíritas, na manhã do dia 9 de outubro de 1861, em episódio que passaria à história como o Auto-de-Fé de Barcelona. E o Tribunal do Santo Ofício, da Igreja Católica, em decreto de 20 de abril de 1864, o incluiria no seu Index Librorum Prohibitorum, ao lado da Revista Espírita, de O espiritismo na sua expressão mais simples e de O livro dos espíritos.

  1. Qual a importância de O livro dos médiuns para a história do Espiritismo?

Allan Kardec, em várias ocasiões, vem dizer que O livro dos médiuns é continuação de O livro dos espíritos. Enquanto este traduz a filosofia da ciência espírita, aquele contém as regras da parte experimental do Espiritismo.

Esgotada, em pouco tempo, a primeira edição – Kardec falava em preparar a segunda, desde março de 1861, dizendo que recebera pedidos da Rússia, da Alemanha, da Itália, da Inglaterra, da Espanha, dos Estados Unidos, do México, do Brasil – O livro dos médiuns atingira seus objetivos, concorrendo para a fundação, estruturação e sustentação de inúmeros grupos experimentais, avaliado de maneira positiva pelo Codificador.

Essa segunda edição, a definitiva, é muito mais completa que a precedente, diz Allan Kardec. Revisada pelos Espíritos, na sua inteireza, apresenta notáveis aditamentos, frutos da experiência, a exemplos das muitas comunicações apócrifas, seguidas de pertinentes observações, de acordo com notícia dada na Revista Espírita, novembro de 1861.

Conclui-se, pois, do acima exposto, O livro dos médiuns é de grande relevância na história do Espiritismo. É o segundo patamar do Edifício da Codificação.

Salve, Allan Kardec!