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Pandemia do desamor

Divaldo Franco
Professor, médium e conferencista
 
Passando os olhos pelo Facebook, um título chamou-me a atenção: “Jovem empurra namorada ao ônibus”.
A moça tomba quase que sob as rodas do veículo, mas salvou-se, levantando-se e buscando auxílio.
O mais impressionante foram a frieza e desfaçatez do psicopata, que tentou abraçá-la como se nada houvesse acontecido… Ela saiu manquejando.
Não me havia superado a emoção derivada do ato perverso, quando encontrei mais duas cenas equivalentes: dois novos pares caminhando, e os companheiros, ante aproximação de ônibus, empurram suas respectivas companhias, tornando o odiento crime como tentativa de homicídio algo banal.
A perda da sensibilidade humana está chegando a um ponto que ultrapassa os mais estranhos comportamentos.
Como se pode estar ao lado de alguém cuja atenção afetiva foi despertada e ao mesmo tempo ser detestada, ao limite de ser cometido um crime com todas as características da perversidade e da indiferença. O mais surpreendente é a ausência de sentimento de humanidade, num momento em que o amor pelas florestas e pelos animais atinge índices os mais elevados que se pode imaginar.
Repassamos mentalmente os hediondos crimes do nazismo e equivalentes no mundo, quando as pessoas eram assassinadas como insetos danosos que não faziam parte do concerto social.
A pandemia da Covid-19 preocupa a humanidade que ainda lhe sofre o aguilhão cruel e destruidor, enquanto as criaturas atormentam-se pelo medo dos relacionamentos domésticos, das agressões e enfrentam insensivelmente “paredões” e semelhantes, nos quais o contágio se torna volumoso e suicida, ampliando os quadros dos contaminados e dificultando o seu desaparecimento.
O ser humano, infelizmente, permanece o lobo devorador da velha tradição, para o qual o sentido da vida é o prazer servil, filho especial do egoísmo alucinado.
A decadência da ética moral, substituída pelas paixões amesquinhantes, exibida nos campeonatos da luxúria e da agressividade, vem governando, cada dia, o homem e a mulher, que se transformaram em objeto de prazer, a prejuízo da nobreza do caráter, dos sentimentos de solidariedade e da cultura tecnológica, que proporciona comodidades e bem-estar.
Os instintos que lhes predominam ainda se encontram nas fases básicas do comer, dormir e reproduzir-se, sem o acompanhamento luminoso e libertador das emoções superiores, que respondem pelas aspirações da inteligência.
Numa comparação estranha, a epidemia de desamor e a que diz respeito à saúde física, a Covid-19 parece menos danosa, porque a ciência médica vem vencendo-a com larga margem de triunfo, enquanto o crime de toda espécie domina imensa fatia da sociedade em desespero malcontido.
 
Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 1º de outubro de 2020.